O PS, em suma, não pode ser o partido matraca de discurso rápido, impenetrável e que não encontra os olhos e os sorrisos de quem está em casa. Esta é a boa e grande tarefa que Pedro Nuno tem pela frente.
Leia este texto na edição on-line do Expresso em:
https://expresso.pt/opiniao/2024-06-10-uma-saborosa-vitoria-do-ps-e7b4614a
O Partido Socialista ganhou as eleições. Por poucos ou muitos, ganhou. E deve ser felicitado o seu líder por isso.
Pedro Nuno Santos, eleito há pouco mais seis meses para aguentar o barco depois de um ataque vil ao governo de António Costa, tem vindo a ser confrontado com obrigações políticas para as quais não teve tempo nem modo de se preparar.
As legislativas que empatou, as duas campanhas na Madeira nos Açores, em que se empenhou quando podia ter ficado na sombra, criaram a sensação de que estas europeias poderiam ser decisivas para a sua liderança. A comunicação social gerou uma quase inevitabilidade de vitória que aconteceu mesmo.
O PS é um partido muito maduro e com um funcionamento interno muito diferente do PSD. Os seus líderes, que chegaram à chefia do governo, saíram pelo seu pé e os que não conseguiram governar saíram pela perceção que dois Presidentes da República, também oriundos do PS, tiveram de que não tinham conexão suficiente com o país.
No role há ainda uma liderança que caiu num processo interno muito participado e duro, liderança que também ganhou eleições, autárquicas e europeias, mas que também tinha perdido a conexão com o país e com as bases internas de representação.
Ora, Pedro Nuno Santos tem pouco tempo de mandato para que lhe digam que está perante qualquer uma das situações referidas. Os socialistas não jogam em tabuleiros de conspiração em permanência, até porque já quase não há conspiradores.
O Partido Socialista ganhou as eleições. Ganhou Pedro Nuno, ganhou Mário Soares e ganhou António Costa.
Soares porque construiu a ideia de Europa agarrada ao PS; Costa porque nestas eleições também foi elemento de equação, como quem analisou as campanhas bem viu. Temos, portanto, nestes dias que se seguirão, de transformar a sua escolha para Presidente do Conselho Europeu numa segunda vitória para os socialistas portugueses.
Por último a lista. O PS teve três cabeças de lista, mas quem esteve na campanha em permanência foi o líder do partido. Já acima se identificaram as razões de tamanha exposição.
Quem, pela primeira vez e depois de 40 anos de atividade política direta, acompanhou estas eleições de fora, pode dizer claramente que notoriedade não é inevitavelmente credibilidade para determinada função e que a ausência de uma sustentada cultura política, somada a um voluntarismo excessivo, também não ajudou.
Pedro Nuno Santos indicou no discurso de vitória que se vão seguir novos Estados Gerais para abrir o PS à sociedade. Esta é a minha nova preocupação.
Há marcas que se não resolvem com Estados Gerais, estão dentro de nós e ou as dissipamos ou, a prazo, acabam connosco.
A primeira marca é a da esquerda em visão unitária. Nunca houve em Portugal, não há na Europa, uma única esquerda. Porém, nesta campanha o que verificámos foi uma quase colagem das ideias do PS às do Livre e do BE. Isso fez com que se tivesse consolidado a tendência de se reduzirem eleitoralmente os partidos da esquerda ultraconservadora, da esquerda fixista e da nova esquerda unipessoal promovendo uma transferência de votos para o PS. E aqui está o perigo. O posicionamento do PS, o mais à esquerda da esquerda de sempre, faz perder o centro e leva a que possa existir um período longo de afastamento do poder. Ora, Pedro Nuno Santos não é líder do PS para ocupar a cedeira do Rato, sim para continuar o muito que se construiu nas últimas encarnações de governo.
O PS não pode bradar aos sete ventos que está em causa a democracia, quando não está; o PS não pode confundir nem juntar o centro-direita com a ultradireita porque não são a mesma coisa; o PS não pode usar o jargão salazarista do nós e eles, porque analfabetiza o debate; o PS não pode sentar a sua mensagem unicamente nos mais pobres, porque a sua existência já é a nossa primeira obrigação; o PS não pode fazer sobressair uma certa visão neomarxista que parece estar patente na forma como olha a economia e a sociedade; o PS não pode ter um discurso assente numa espécie de ralhete para quem ouve em casa, porque os milhões de votantes só julgam os partidos através da televisão; o PS não pode ser o partido onde parece não haver o mínimo de ponderação, porque não se sente uma linha de rumo estruturada; o PS não pode ser o movimento onde muitos protagonistas negam a qualidade e a beleza da língua portuguesa para convencer e desconhecem as palavras simples dos adágios para encontrar os ouvidos que estão do outro lado. O PS, em suma, não pode ser o partido matraca de discurso rápido, impenetrável e que não encontra os olhos e os sorrisos de quem está em casa. Esta é a boa e grande tarefa que Pedro Nuno tem pela frente.
Carmo Afonso teve, esta semana, um momento de grande lucidez num artigo que levou ao prelo no Público. Falava do declínio do Bloco de Esquerda e do PCP, mas o endereço ia mais além – Largo do Rato, 2 – Lisboa.
O eleitorado português abandonou a luta de classes, ninguém se afirma trabalhador, quase toda a gente é da classe média, mesmo os que recebem subsídios rejeitam a consideração imagética de pobre ou de desprotegido. Tudo isto é realmente decisivo.
Se o PS optar por ser só o grande partido dos de baixo e negar a energia, a imaginação e o futuro dos que querem ser alguém na vida, então não haverá Estados Gerais que lhe valham. É por isso que o trabalho de Pedro Nuno não é só preparar o PS para ganhar as autárquicas e as presidenciais, é ter a humildade de entender Carmo Afonso, abandonar os dois ou três cucos que querem mandar no PS sem serem do PS e lhe falam através de estatísticas, para voltar a ter uma verdadeira ambição de líder que rejeita ser calimero.
Se ele quiser, há muita gente com ideias e conhecimento do país e do partido que embarcará consigo.
Ascenso Simões