A grande falha está no facto de não se entender que têm de ser as comunidades intermunicipais e os municípios, transferindo para estes conhecimento, tecnologia e financiamento, a concretizar a prevenção.
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A Proteção Civil, sistema que integra um sem número de agentes e aos quais deve “comandar”, não devia ter como função combater os incêndios florestais. A sua competência primeira é a defesa de pessoas e bens.
No final da década de 1980, Cavaco Silva passa a “chatice” dos incêndios para os bombeiros, desgradua as circunscrições florestais, inicia um processo de deterioração institucional do universo silvícola.
Os incêndios de 2003 e 2005 provocam um impacto enorme na vida dos cidadãos e na economia. Era preciso concretizar uma reforma profunda que levasse a uma melhor floresta.
Essa reforma passava por um tripé – Investimento e gestão Florestal e Prevenção Estrutural assentes numa perspetiva económica e de sustentabilidade; Prevenção operacional no âmbito da fiscalização e acompanhamento do território; Primeira Intervenção e combate com novas técnicas e mais conhecimento.
A criação da Autoridade Nacional de Proteção Civil teve como centro a estruturação de dispositivos para muitos dos riscos com que nos defrontamos. A criação de novas realidades estruturais nos corpos de bombeiros, com mais profissionalização e melhor conhecimento, não tinha, nem tem, como único objetivo os incêndios florestais, mas sim a organização de um sistema multiagentes que antecipa ou responde a cada acidente ou calamidade nos termos de uma diretiva própria.
Em 2009 temos a mudança rápida da estrutura institucional no setor florestal. É criada a Autoridade Florestal Nacional, criado o Dispositivo de Prevenção Estrutural, duplicada a estrutura de sapadores florestais, incrementadas as ZIF’s até 800 mil hectares, iniciado o processo de “purificação” dos baldios, determinadas as obrigações para as áreas protegidas, criado o primeiro organismo interprofissional na floresta e, ainda, aprovado o Código Florestal que foi logo “desaprovado” porque todos os interesses se manifestaram.
A partir de 2011, a componente florestal do tripé foi completamente desestruturada. Os homens do ambiente tinham vencido a economia da floresta.
Em 2015, com o governo da geringonça, foi criada a AGIF, entidade que sempre se mostrou excêntrica no panorama institucional. O que na altura se recomendava era o regresso e a consolidação da Autoridade Florestal Nacional, o reforço da sua ação no investimento, no planeamento e na gestão ativa. Devia ter-se voltado à existência de uma Direção Nacional de Prevenção Estrutural, dentro da ANF, que tivesse o papel da AGIF, dever-se-ia ter garantido que o fundamentalismo ambiental não impedia o bom caminho.
Ora, as mudanças que se verificaram depois de 2017 estão agora em causa, tudo porque ninguém, no terreno, compreendeu o papel da AGIF nem a sua tentativa colonizar “intelectualmente” todo o setor. A grande falha está no facto de não se entender que têm de ser as comunidades intermunicipais e os municípios, transferindo para estes conhecimento, tecnologia e financiamento, a concretizar a prevenção. Há, contudo, um problema grave nos decisores – veem o território a partir da cidade e essa visão impõe-se depois de cada verão.
Ascenso Simões