19 de abril de 2022
O Partido Socialista entra hoje nos cinquenta anos da sua existência. E esta marca merece ser pensada, comemorada e projetada para o futuro.
Que PS era aquele que nasceu na República Federal da Alemanha na primavera de 1973? Em boa verdade era uma “teimosia” de Mário Soares, uma continuação das lutas republicanas anti-botas e um desejo de fazer nascer, em Portugal um movimento político que se situasse no campo do socialismo não comunista.
Não tenho como adquirido que na cabeça de António Macedo ou de Cal Brandão esse tal socialismo fosse uma coisa bem estruturada. E também não sei se em alguns dos constituintes da nova geração as diferenças com o Partido Comunista Português fossem nítidas.
Em boa verdade, o PS é, até ao seu primeiro Congresso, a leitura de Mário Soares, a sua capacidade de encontrar pontes com os socialistas franceses e com os sociais democratas alemães. Neste jogo há uma personalidade que é quase desconhecida, António Coimbra Martins, que assume a proximidade ao círculo de Mitterrand e outra mais conhecida por maus motivos, Rui Mateus, que cabouca em viagens nos países nórdicos.
O PS da democracia é o que todos sabem. Estruturante da democracia pluralista, construtor do Estado Social, franqueador da abertura ao mundo. Mário Soares é o símbolo do combate aos desvarios, da unidade e da reconciliação à esquerda e à direita, do sucesso da nossa vida democrática.
Neste meio século em que entramos não faltarão os momentos de memória. Estamos no limite de podermos recolher muitas das visões sobre o PS que se forjaram neste longo tempo. Nessas visões não podem falhar Adriano Moreira ou Domingos Abrantes, Pinto Balsemão ou Ramalho Eanes. Como também não podem falhar as leituras dos confrontos internos que estiveram presentes em 1974 em 1981, em 1991, em 2004 e em 2014.
É, porém, meu entendimento que o PS deve aproveitar este tempo até aos 50 anos do 25 de abril para se refazer. E só há uma forma de se refazer – criar um partido horizontal onde o aparelho seja o menor dos males.
O PS é hoje o partido do poder local. Não tenho certezas sobre o que significa tal estatuto. Mas inclino-me cada vez mais para o facto de nos termos transformado num partido de sistema, em muitos sítios demasiado conservador e até atávico. A perda de importância nos mais jovens coloca o PS numa crise que não tardará. E é esse o meu medo.
O Partido Socialista das redes sociais é catatónico. Não que o seu site seja mau, não que os materiais sejam péssimos, mas porque não há interação.
Dizem que os partidos não se reformam estando no poder. Tenho exatamente a ideia contrária. Muitos dos partidos sociais democratas que estão no poder, em especial no centro e norte da Europa, constroem-se a partir do que está fora, calibram-se a partir da medição da opinião dos apoiantes.
Mas há um outro trabalho, ciclópico e difícil, que deveremos ponderar. A Declaração de Princípios que vigora tem duas décadas e o mundo é outro.
Nos nossos princípios há pouco de tecnologia, ambiente, cidadania, liberdade e igualdade, tudo conceitos diferentes do que tínhamos antes da globalização e da captura informacional. Há pouco de uma visão da economia agregada à crise do mundo neo-liberal que criou fábricas de fazer pobres e há pouco de equilíbrios de desenvolvimento entre continentes e blocos. Em suma, a nossa Declaração de Princípios é tudo o que era o PS até ao dia em que a internet nos entrou em casa.
Gostaria muito que o Partido Socialista aproveitasse as efemérides do meio século para se fazer à estrada. E gostaria que fosse António Costa, o líder que fez a transição da geração de 1960, que já quase se perdeu, para a da democracia, a incrementar a mudança.
Para quem se situa numa fase da vida partidária em que o PS é memória e preocupação, estas tarefas seriam motivo de grande contentamento.