Há várias razões para essa tristeza. A primeira prende-se com a falta de humanidade e empatia. Muitos dos políticos no ativo deixaram de brincar consigo próprios, deixaram de ter o savoir faire de tempos passados. Levam-se demasiado a sério para que os portugueses deles se possam orgulhar.
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A última vez que vi alegria numa campanha eleitoral foi em 2005. Desde esse final de inverno até hoje, o país foi sempre a votos como se de uma obrigação se tratasse.
As campanhas de 2009 e 2011 estavam já marcadas pela crise, a de 2015 pela austeridade, a de 2019 pela ausência de alternativa e a de 2022 pela obrigação de responsabilizar quem tinha chumbado um orçamento. Faltou sempre um nova dimensão de esperança, sobrou sempre o mecanismo seco da ambição de poder.
Para se ter uma dimensão do tempo que passou, importa dizer que quem nasceu no ano da primeira maioria absoluta do Partido Socialista já atingiu, por estes dias, a maioridade, nunca tendo visto, entretanto, nada de muito mobilizador, de provocador, de profundamente alegre.
Mas a alegria é condição para se governar bem? A resposta não se afigura fácil. Em situação crítica é muito difícil encontrar alegria quando se cortam salários, se aumentam impostos, se reduz o bem-estar das populações. Em tempo de alguma normalidade essa mesma alegria é condição essencial à mudança, à captação dos melhores, ao contágio provocado pelas ideias.
A ausência de alegria tem sido uma constante em quase todos os atos eleitorais que se têm realizado por essa Europa fora nestes anos mais recentes. A democracia passou a ser, em muitas terras, um conjunto de atos maquinais em que se escolhe o menos mau.
Recentemente, houve mesmo uma chefe de governo, Sanna Marin, que perdeu eleições porque transmitia uma certa alegria, porque não conseguia governar sem uma forte dose de compensação pessoal. Penalizam a sua pessoa, mesmo que tenha sido exemplar no combate à pandemia, mesmo que tenha sido robusta na leitura da invasão da Ucrânia, porque aquela alegria era pueril, excêntrica. Mas o mais complicado é quando há comportamentos infantis e extravagâncias mesmo sem qualquer laivo de contentamento pessoal. Nessa altura já é só irresponsabilidade, falta de tino.
Foi, aliás, o que fez de Ayuso, a política mais in de Espanha, entrar no voto moderado dos madrilenos, juntando aquilo que eles acham ser responsabilidade e autoridade com uma capacidade enorme para se fazer acompanhar de alegria, principalmente dos mais jovens de todas as origens.
Há umas décadas vi um filme sobre a vida e obra de Giulio Andreotti, político italiano que foi primeiro-ministro, por diversas vezes, entre 1972 e 1992. Andreotti era o político que negava a alegria na ação governativa, era frio, sorumbático, circunspecto. A sua ação entroncava com a corrupção de forma profunda e com o poder da máfia que definia a política e a economia. Pode, pois, ter-se via longa no exercício da gestão pública sem se ter alegria, mas tendo outras coisas como sejam os cordelinhos dos subpoderes, fazendo mesmo desaparecer inimigos políticos como foi o caso de Aldo Moro.
Em El Divo, o filme biográfico de Andreotti que Sorrentino realizou, vê-se como a ausência de alegria dos políticos faz um país sem alegria. Itália foi, nessas décadas, o país da Europa mais atacado pelo terrorismo. A atitude da juventude italiana, quer respirasse a movida de Turim da década de 1970 ou a extravagância de Milão dos anos seguintes, não passava para o todo nacional, a alegria era negada a cada casa, a cada espaço de universidade ou de empresa.
Em A Melhor Juventude, Marco Tulio Giordana fez um retrato da sociedade, a amargura que se atravessava entre gerações. Itália, mesmo com as canções românticas das décadas de 1960 a 1980, nunca foi um país (?) alegre, por culpa dos seus políticos e da Igreja.
Mas Espanha já foi. A transição democrática foi muito mais do que uma revolução em curso. Foi a atualização do ser espanhol nas suas diversas componentes. Em España, Camisa Blanca de Mi Esperanza, cantada por Ana Belém, dizia-se tudo o que se queria da nova democracia. Eram todas as alegrias que se encerravam numa canção, eram todos os caminhos que se faziam para um novo advir.
Em Itália, a implosão do sistema político da década de 1990 não trouxe alegria, trouxe entretenimento com Berlusconi, um embrutecimento do povo através multiplicação dos macacos Adrianos. Em Espanha, com Zapatero e depois da bolha imobiliária de Aznar, ainda houve uma espécie de alegria fingida, mas nada mais sobrou depois de Rajoy.
As eleições espanholas do passado fim de semana foram a penalização pela ausência de alegria, a rejeição de políticas impostas para fazer um homem novo, o bater o pé à tal mecanização da política. A Lei da Vivenda retirou centenas de milhar de votos ao PSOE e nem um deu ao Sumar da singular ministra ex-comunista Yolanda Diaz. As políticas de invasão da propriedade de Ada Colau, em Barcelona, deram uma vitória ao PSOE, o único sítio onde a moderação, a paciência, a proximidade, a empatia, em suma a alegria, fizeram vitórias eleitorais para os socialistas. O experimentalismo de Sanchez deu-lhe cinco anos de presidência do Governo, mas só fez dele o político mais execrado da democracia, superando Aznar, e provocou a normalização do VOX, a sua consideração para uma governação falangista em próximo tempo.
E o que se está a passar em Portugal? Estamos também num tempo de cavada tristeza!
Há várias razões para essa tristeza. A primeira prende-se com a falta de humanidade e empatia. Muitos dos políticos no ativo deixaram de responsavelmente “brincar” consigo próprios, deixaram de ter o savoir faire de tempos passados. Cruzam as mãozinhas como beatos, levam-se demasiado a sério para que os portugueses deles se possam orgulhar. E não se quedam nos ralhetes em público, mesmo aos jornalistas…
A segunda razão é a da falta de cultura ampla. A política está cheia de gente que nunca leu o Tintim, que nunca se especou à frente da televisão a ver os desenhos animados do Vasco Granja. Gente que é incapaz de se sentar para se rir, mas lesta a pôr um ar professoral, pessoas que não se dão ao tempo saboroso de um licor de menta em coupette. Ora, os portugueses abaixo dos quarenta, que há anos viajam em low cost e fizeram Erasmus, já viram mais do que um qualquer político provinciano saído de Algueirão-Mem Martins e não se dão por satisfeitos com o país que temos.
A terceira razão é a que se prende com o facto de muitos terem deixado de andar na rua. A maior parte dos políticos de hoje não se divertem a ver a rebaldaria dos mais jovens, a dança dos mais velhos. Não se deixam implicar pelas quadras do Canário e não se dão a horas de profundidade de uma peça dirigida por Lorenzo Viotti. Falta-lhes ecletismo. E há ainda uma razão para que a alegria se tenha afastado da maioria dos operários das instituições hodiernas – o desconhecimento de como se constrói uma estética da governação. O cuidado abandonou a Europa e fez os parlamentos vestir tshirts contrafeitas. Não há poder sem uma estética, não há comunidade que cresça sem beleza. E foi esta a razão que fez com que o PSOE tivesse perdido, lamentavelmente, Sevilha. Um político culto, como é Muñoz, não pode ter sucesso eleitoral se for um homem sem elaboração pessoal, sem de proximidade e sem alegria. E logo em Sevilha…
Tudo isto se vê em alguns setores no Governo atual. Mas é mais nítido na oposição desconchavada e sem qualquer ponta por onde se lhe pegue. O PSD tarda em formar Luis Montenegro e o seu grupo com o mínimo de ferramentas que impliquem elaboração e alegria no que transmitem; o PCP elegeu um bom rapaz que a popular e comunista padeira de Mirandela diz não chegar aos pés do Jerónimo; a IL saltou de alguém que se podia sentar à mesa para uma figura menor de um filme de cowboys; o Bloco, agora dito de esquerda molotov, elegeu uma nova/velha líder que vestiu de branco e pintou as unhas, mas esqueceu-se que as Sanjo são boas para fazer calos.
É isto que temos. Eu gostava de ter o Partido Socialista como partido da alegria, o partido que viveu a canção de Rui Veloso que fez a vitória de Soares em 1986, o partido que tem em si, como nenhum outro, o hino da União Europeia, pura alegria de Beethoven, o partido que, quer queiram quer não, se assumiu num caminho de majestosidade sonora e cénica de Conquest of Paradise by Vangelis.
Estão a roubaram-nos a alegria. Temos de voltar a tê-la connosco. O problema é que a pouca alegria que ainda há no PS é o que nos resta na vida política. É por isso que espero que o PS recupere caminho. Se não o conseguir jornadearemos ainda mais na melancolia. Infelizmente!
Ascenso Simões