Incêndios Florestais – importa dizer a verdade aos portugueses

03/07/2023

Se Costa tem todos os cenários em aberto (Presidente, Primeiro-Ministro ou Presidente do Conselho Europeu), não é menos verdade que Centeno também tem em aberto uma candidatura à Presidência da República. E sem Costa ela será inevitável, reunindo em si – empatia, visão para o país e obra feita.

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https://expresso.pt/opiniao/2023-06-29-Centeno-o-politico-474c7602

Quando ouvi falar, pela primeira vez, de Mário Centeno, fui à procura de saber quem era, o que pensava, de onde vinha e que ideias tinha.

Era um quadro do Banco de Portugal, líder de uma linha minoritária dentro da instituição, professor reconhecido e autor de um conjunto de textos sobre a economia do trabalho com os quais rapidamente me identifiquei.

Falei com ele, pela primeira vez, nos tempos do cenário macroeconómico que veio a sustentar a Agenda para a Década com que PS se apresentou às eleições legislativas de 2015, e a figura pareceu-me especial.

Nos primeiros anos da experiência governativa de Centeno, era nítido que se encontrava fora do seu ambiente, os iniciais discursos parlamentares não foram de grande valia.

Centeno, porém, é muito mais do que simpatia, tem uma personalidade forte que é muitas vezes dissimulada.

Tenho para mim que Centeno não acreditava na Geringonça. A forma como sempre tratou as propostas dos partidos à esquerda do PS, poderá confirmar isso mesmo. Fez, porém, uma coisa simples – o que era necessário pagar pelo apoio parlamentar foi sendo equilibrado com cortes em despesa, imposição de cativações, limitação no investimento. Neste jogo entrou António Costa, ciente, como estava, de que não havia outra solução para garantir a governação cá dentro e cumprir com as obrigações lá fora.

O que fez mudar Centeno transformando-o na figura mais valiosa do Governo nas eleições de 2019? Indico três razões para essa mudança. A primeira, de natureza pessoal, foi a de ter sabido construir aura a partir de um posto onde é difícil; a segunda, de natureza económica, foi a de não ter cedido em nada de essencial, muitas vezes contra o chefe do Governo; a terceira, política, foi a de ter descoberto que a opinião pública portuguesa se ganhava com uma frase simples e que marcou quase todo o século XX e as primeiras duas décadas do século XXI – contas certas.

O seu percurso interno, transformado em sucesso nas burocracias europeias, levou-o a postos imprevisíveis, garantiu-o no lugar que ele sempre ambicionou cá dentro – Governador.

Centeno fez publicar um interessante texto no Público (23.06.2023) que teve pouca análise e reduzidas referências. Quase nada sobre cenários macro, pouco sobre opções etéreas que sempre estão na cabeças dos banqueiros centrais, muito sobre política interna, uma espécie de lembrete de que os resultados de hoje têm um pai (Costa) e uma mãe (Centeno) e começaram em 2016.

Há quatro parágrafos que importa reter. Escreve “Desde 2016, a tendência em Portugal é de convergência com a área do euro. Na década que termina em 2025, vamos crescer mais de oito pontos percentuais acima da área do euro. Nos longos anos que decorreram entre 1995 e a grande crise financeira de 2008, a convergência foi de apenas um ponto percentual.” Ainda, “A percentagem de pessoas em risco de pobreza em Portugal passou de quatro pontos percentuais acima da área do euro, em 2015, para dois pontos percentuais abaixo. Ultrapassámos, neste período, países com a Espanha, França ou Alemanha.

E continua. “Entre o início de 2019 e o de 2023, o emprego em setores de maior valor acrescentado e salários acima da média cresceu mais. Dos 350 mil empregos criados pelo setor privado, 112 mil foram nos setores da informação, comunicação, consultadoria, ciência e imobiliário, onde o salário médio é de 1800 euros.” E “Nas qualificações, abandonámos a cauda da OCDE na percentagem de estudantes que entra no mercado de trabalho com o ensino secundário completo, para estar hoje no topo. De pouco mais de 40%, passámos para mais de 85%.”

Centeno, produzindo um balanço político, olhando o país que ele ajudou a fazer crescer, dá só três conselhos – “É necessário manter a redução do endividamento e aumentar a poupança; continuar a transição educativa, de que ninguém se pode apoderar ou tornar refém; e abrir as nossas fronteiras ao conhecimento e ao trabalho de todos os que possam contribuir para o sucesso da nossa sociedade.”

Este parágrafo é todo um programa. Contas certas; sociedade livre e competente; um país aberto ao mundo. Ninguém faria melhor uma trilogia base para uma candidatura presidencial em 2026.

Sempre tive para mim que António Costa deveria candidatar-se a Presidente da República (ele sabe-o bem), mas ele teima em dizer que um “executivo” não gosta da função. Todos os portugueses adivinham que no seu íntimo não pensará assim. Se Costa tem todos os cenários em aberto (Presidente, Primeiro-Ministro ou Presidente do Conselho Europeu), não é menos verdade que Centeno também tem em aberto uma candidatura à Presidência da República como este texto bem comprova. E sem Costa na corrida ela será inevitável, reunindo em si – empatia, visão para o país e obra feita.

Os próximos anos vão ser muito interessantes para Centeno.  Cá estaremos para o seguir!

Ascenso Simões