Pode o tempo político do imediato comportar reflexão e negar a espetacularidade? Esta é a pergunta que tem obrigado muitos intelectuais a repensar o seu papel no mundo de hoje, é a grande incógnita que se coloca a muitos dos que não cedem no elogio das ideias, no confronto de projetos.
Há quem ache, também, que nesta época do descartável deixou de haver intelectuais porque não existe mais tempo para o distanciamento. Há, ainda, quem considere que a gestão das espectativas só é compatível com o otimismo superficial em contraste com a obrigação de um ceticismo estruturado. Não comungo destas visões dramáticas que vulgarmente se escutam. Há ainda muito espaço para desenvolver pensamento, seguir pelas entranhas da política ativa sem cedências.
Quando olho para Pacheco Pereira ou para Augusto Santos Silva eu vejo o intelectual que se não reveste da pele barroca do intelectual português. Não vive numa caverna, não se afasta para reivindicar diletantismos, não foge do comum por desnecessidade de saber mudar uma lâmpada.
A estes eu chamo intelectuais públicos, porque não suportam o medo de se confrontar com o saber analfabeto da turba.
Porém, em Portugal ainda não comportamos uma vasta elite de tais intelectuais públicos. Em muitos países da Europa, na maior parte dos países da América do Sul, o número destes agentes é crescente. Não são só académicos, são provocadores de si e dos outros, por vezes defendem ideias com as quais estão em profunda divergência por necessidade de encontrarem os carburantes imprescindíveis à criação.
Esses intelectuais públicos também não são só os habituais obreiros das humanidades. São, em várias frentes, pensadores da realidade virtual, da medicina cotejada pela tecnologia, da biologia confrontada com a imortalidade.
Dirão que em todas as áreas que referi lá está a filosofia. Não o posso negar, porque não somos mais do que água e filosofia. Mas essa filosofia não precisa de entrar pelas palavras de Hobbes ou de Diderot, pode ser a mera experiência cutânea que faz de um analfabeto um criador.
Há em Portugal espaço para mais intelectuais públicos? Tenho para mim que há dois problemas graves para possa haver mais. O primeiro é o da inveja académica. No atribulado processo do meu doutoramento fui-me apercebendo do quão penoso é democratizar ideias não validadas, como se pode arrasar o atrevimento qualquer visão não ortodoxa. O segundo, o que se prende com a captura da comunicação pelos políticos no ativo. As televisões, as rádios e os espaços de comentário dos jornais estão repletos de “travestis” políticos, categoria em que muitas vezes me coloquei. Ora, a função faz o órgão, nas palavras de Natália Correia, e a limitação partidária limita a descoberta de novos campos de análise para além os binários “nós e eles”.
Um blog é uma forma de ejacular ideias. Não sabem como ficamos mais frescos quando debitamos umas tantas palavras sem nexo para este suporte dos primeiros tempos da digitalização. E é neste que hoje se inicia eu vou colocar tudo o que me permitirem as minhas ideias, vou escancarar todas os nossos pecados coletivos.
Uns dirão que fiquei louco; outros ponderarão se pode haver alguma coisa de útil nas diatribes. Eu cumprir-me-ei enquanto sapiens.