Sabemos bem que o Professor governou uma década com um sistema partidário assente em quatro partidos, que não ia ao parlamento prestar contas, que não existiam televisões privadas, nem internet, nem redes sociais. Sabemos que o tempo de hoje é horrível para Cavaco Silva.
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O ensaio que o Prof. Cavaco Silva fez publicar no dia em que se confirmou a escolha de António Costa para presidente do Conselho Europeu (não há coincidências), é uma mão cheia de presunções que carecem de enquadramento.
A pergunta que faz é simples: “Qual a probabilidade de, nos próximos 10 anos, Portugal dar um importante salto em frente em matéria de bem-estar das famílias e aproximar-se dos países mais ricos da União Europeia?”.
Pretendendo responder, inicia esse exame tendo como ponto de partida todos os anos deste século XXI.
O Professor esquece a grande crise de 2008/2009, ainda era Presidente, o impacto que teve no nosso país e em todo o mundo e também esquece a realidade que hoje vivemos.
Por muito que custe ao ex-primeiro ministro, Portugal tem tido um desempenho notável ao nível da robustez das contas públicas, ao nível do crescimento económico, ao nível do investimento estrangeiro, ao nível das exportações, ao nível do emprego, ao nível do incremento dos salários, ao nível da redução da pobreza e ao nível da qualificação dos portugueses.
Foi o nosso Serviço Nacional de Saúde, com os problemas conhecidos e que urge resolver, a fazer frente a uma pandemia que nenhum outro governo teve de enfrentar, foi a nossa capacidade de seguir em frente e a atenção dos poderes públicos que frenou os impactos da invasão da Ucrânia e as crises inflacionária e energética que vivemos. Fizemos tudo isto continuando a ser um dos países mais seguros do mundo.
Cavaco Silva analisa a nossa produtividade. Também aqui há intenção dissimulada de fazer esquecer o crescimento acima da média europeia ( 2,2% entre 2015 e 2023) e o incremento do poder de compra do salário médio em áreas relevantes e recentes da nossa economia como sejam as tecnologias.
No ensaio o ex-chefe de Governo diz-nos que importa reduzir o investimento “em construções”. Ora, olhando a necessidade de habitação que se sente, esta receita é tão abstrusa que nem parece vinda de alguém que lê jornais, analisa estatísticas e foi o político profissional mais longevo da democracia.
É perante esta visão desfocada de país que Aníbal Cavaco Silva nos diz que importa convocar eleições e garantir uma maioria robusta.
Sabemos bem que o Professor governou uma década com um sistema partidário assente em quatro partidos, que não ia ao parlamento prestar contas, que não existiam televisões privadas, nem internet, nem redes sociais. Sabemos que o tempo de hoje é horrível para Cavaco Silva.
As democracias derivam da vontade do povo. Não a vontade que gostaríamos que o povo tivesse. Teria sido mais útil que Cavaco Silva tivesse aconselhado humildade e abertura a Montenegro, condições essenciais à governação. Mas isso seria pedir muito a quem nunca se revestiu dessas características.
Ascenso Simões