Incêndios Florestais – importa dizer a verdade aos portugueses

28/12/2023

Seria muito penoso assistir a três meses de guerras sobre listas. Listas para os órgãos do partido, listas de candidatos para as legislativas. A inteligência aguda de PNS diz-lhe que o caminho deve ser o da agregação, mas o líder não chega a todo lado e as tribos, quando postas em campo, desfazem o que importa conseguir para sabermos cumprir o que os portugueses nos pedem.

 

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Os militantes do Partido Socialista escolheram, no final da passada semana, Pedro Nuno Santos para a difícil função de secretário-geral.

Trata-se de um fardo enorme o que o novo timoneiro recebe. A História do PS, as suas realidades internas, as famílias políticas que nele habitam, as lições que nos dizem que há caminhos que não deveremos perseguir, para que nunca se ponha em causa o papel essencial do partido enquanto força motora da sociedade e charneira no universo político, tudo isto deve ser bem ponderado pelo círculo de poder que agora que vai criar.

As circunstâncias especiais que nos trouxeram até aqui também são de ponderar. Não há substituição de líder por ter terminado um ciclo, por termos perdido eleições ou por haver um apelo de outra natureza endereçado a quem deixa o lugar. Vivemos e viveremos tempos em que a justiça implicará a política e em que a insatisfação dos portugueses, somada à informalidade e ao voluntarismo com que muitas vezes se executam as políticas, indicam um crescimento preocupante das forças populistas.

Quem acompanhou a campanha interna percebeu bem porque é que muitos cidadãos se encaminham para esses movimentos que combatem a democracia liberal. Não foi raro ouvir dos militantes a máxima de “nós aqui de baixo sofremos nas mãos de vocês, os lá de cima”. Ora, o PS tem de entender muito bem o que está em causa, tem de ponderar os avisos, ir além dos grupos reduzidos de pensamento abstrato que se fazem valer pelos média mas que não se consagram no entendimento do real.

A campanha interna não teve surpresas. Carlos Manhanelli, o grande mago da estratégia política, sempre nos disse que o “incumbente” não pode descer ao nível do challenger, e que este, por sua vez, não pode deixar de indicar, de forma grave, aquilo que considera serem as fragilidades pessoais e políticas do adversário.

Pedro Nuno Santos, o candidato que apoiei, fez o seu caminho. E não foi fácil fazê-lo, porque vive entre o seu espaço de amizades, com uma certa identificação ideológica, e a realidade eleitoral global do PS. José Luis Carneiro transfigurou-se. Quando escrevi aqui, há umas semanas, o texto Os treze que vêm a seguir ao costismo eu não deixava de inserir Carneiro na lista, mas identificava-o com handicaps relevantes. A verdade é que transpôs algumas dessas limitações e desta campanha saiu aos olhos de muito boa gente, uma outra pessoa que, a partir de agora, vai além de um mero papel secundário.

Uma campanha nunca é só o que dizem as figuras cimeiras. É a máquina, que em Carneiro funcionou com alguns cuidados e um certo profissionalismo (mesmo quando comete o erro de ser invasiva)  e em Pedro Nuno funcionou com falhas nítidas. Não fora a paciência de Francisco César e as coisas poderiam ter sido inquietantes.

Mas também é a “estrutura de diversão”. O que diz Manhanelli sobre esta tão impressionante estrutura? Tão só que para uma campanha não basta ter um candidato, um guião mínimo, bandeiras e aplausos. Interessa ser ardiloso em argumentos que podem parecer exagerados, por vezes até podem afirmar-se excessivos, mas que dão às bases as frases simples sobre o que dizer perante cada conversa ou discussão. Os apoiantes de Carneiro souberam fazer muito bem isso, até porque muitos deles têm longa carreira política, mas do lado de Pedro Nuno só dois dos seus apoiantes conhecidos, por sinal pouco dados a salamaleques quando escrevem nos jornais, foram à peleja com a cavalaria que interessava. 

Pedro Nuno está eleito. Por menos do que inicialmente eu esperava, mas, mesmo assim, com uma margem muito confortável.

O meu receio não está, portanto, no dia de hoje. O meu temor está, desde logo, no fazer renascer em Pedro Nuno a empatia que quase não se viu nesta campanha, a capacidade de integrar externamente que se viu pouco no território, a vontade de continuar a garantir o PS sentado no centro-esquerda do sistema político como partido da Alameda.

Haverá, nos próximos dias, sinais que nos dirão sobre o que ele quer verdadeiramente. Os primeiros serão ainda esta semana, quando tiver que dizer aos portugueses quem são os eleitos que vão elaborar o Programa de Governo e o Cenário Macroeconómico.

Se for avisado, como quase sempre parece ser, Pedro Nuno vai escolher, para o Cenário, alguém que não tenha estado ativo nesta campanha, que conheça muito bem todo o enquadramento político da governação e que tenha passado pelo Ministério das Finanças, em suma, que possa dar confiança a quem olha Portugal de fora, a quem constrói Portugal para além dos tais laboratórios académicos e entenda a economia real.

O segundo sinal é o da elaboração do Programa de Governo. As moções de Carneiro e Pedro Nuno eram textos curtos. Nem sequer tinham uma análise desenvolvida sobre o movimento social democrata no tempo de hoje, os objetivos do PS para as legislativas, europeias, autonómicas do Açores e autárquicas. Mas uma coisa é papel para dentro e outra é papel para fora, aquilo que vai servir para o combate, a sério, com Montenegro.

Ora, um Programa de Governo, nas circunstâncias que vivemos, só pode ser escrito a várias mãos – umas do lado do vencedor, outras do lado do challenger e ainda as de uma personalidade que não trabalhe para dentro, que só pelo facto de ser quem é, passado e presente, coloca logo um selo de garantia que resulte da credibilidade e da prudência.

Fazer um programa é, sempre, a indicação de quem serão algumas das pessoas que podem vir a ser membros do Governo, não o resultado de papers avulso que nos vão chegando de contribuintes voluntariosos.

O terceiro sinal é o da unidade orgânica. Seria muito penoso assistir a três meses de guerras sobre listas. Listas para os órgãos do partido, listas de candidatos para as legislativas. A inteligência aguda de PNS diz-lhe que o caminho deve ser o da agregação, mas o líder não chega a todo lado e as tribos, quando postas em campo, desfazem o que importa conseguir para sabermos cumprir o que os portugueses nos pedem.

Confesso algum receio!

 

Ascenso Simões