Incêndios Florestais – importa dizer a verdade aos portugueses

20/06/2022

Muitos colonistas da esquerda radical usam um palavrão para encostar Macron ao muro. A sua política e o seu partido são ultraliberais. Está claro que Macron se diz liberal, mas na França estatista ninguém consegue ser ultraliberal, ninguém.

 O texto original pode ler lido em: https://expresso.pt/opiniao/2022-06-16-Um-verdadeiro-socialista-vota-Macron-8a59d162

“A democracia é o pior de todos as regimes, com exceção de todos os outros.” Esta grande frase aplica-se à hodierna vida politica francesa com toda a propriedade, num tempo em que só há um movimento político, dos relevantes, que assume a democracia liberal em toda a plenitudele  movement Ensemble!

Em Portugal muitos foram os “vivas à Maria” pela solução que algumas esquerdasfrancesas encontraram tendo como objetivo questionar o partido do Presidente Macron. Houve atrevidos a comparar esta solução proparoxítona à Geringonça, nascida em 2015,e que levou a acordos do PS com os partidos menores do universo a que se convencionou chamar esquerda portuguesa.

Alexis Corbière, porta-voz de Jean-Luc Mélenchon, afirmaria mesmo que a solução das esquerdas portuguesas havia servido de inspiração à criação deste novo ente chamado Nova União Popular Ecológica e Social.

No sul da Europa temos governos liderados por socialistas – Costa e Sánchez. Costa fez o caminho governativo, durante seis anos, com apoios parcelares com o PCP e o Bloco; Sánchez foi mais longe e integrou no governo o movimento dos populistas da esquerda radical e os comunistas.

Estes dois caminhos estão a ser feitos com uma forte preocupação ecológica e social, mas são respeitadores da democracia liberal e das especificidades territoriais. Em ambos os casos se honram as fundações da União Europeia, a pertença à Organização do Tratado do Atlântico, a Concertação Social. Ou seja, em ambos os casos as soluções encontradas foram sempre na leitura do socialismo democrático e da social-democrata que há mais de um século se assevera.

Em Portugal afirma-se, também, a moderação na relação dos poderes entre órgãos de soberania; em Espanha afirma-se a perenidade da Constituição da transição e uma total salvaguarda da opção pela monarquia constitucional pós-franquista.

Olhando agora para as iniciativas legislativas sobre o trabalho em processo na Península Ibérica – a Agenda do Trabalho Digno em Portugal, ou a Nueva Reforma Laboral em Espanha podemos comprá-las com as que a esquerda da nova frente popular francesa nos oferece.

O frentistas franceses sabem que não é possível manter a idade de reforma em patamares como os existentes na década de 1970. Também em França se verifica o inverno demográfico. E mais, a realidade da sociedade francesa é hoje muito diferente dos anos pós-guerra. A França perdeu muita da sua capacidade produtiva na indústria e na agricultura e tem o maior peso per capita dos apoios sociais de toda a Europa Central e Sul.

O desbocado Mélenchon reclama os votos dos que querem a reforma aos 60 anos, dos que clamam a redução do horário de trabalho, dos que reivindicam aumentoinsuportáveis do rendimento mínimo. Ou seja, tudo o que parece ser contrário à realidade do tempo.

Muitos colonistas da esquerda radical usam um palavrão para encostar Macron ao muro. A sua política e o seu partido são ultraliberais. Está claro que Macron se diz liberal, mas na França estatista ninguém consegue ser ultraliberal, ninguém.

O defeito de Macron foi o ter permitido que lhe colassem à cara a ideia de que a sua politica era a de criar uma França Sociedade Anónima. A marca ficou, mesmo que os seus governos o não o tenham comprovado. E o seu estilo imperial, no tempo de hoje, pode ser uma mistura dos de De Gaulle e Mitterrand, mas não é o que os franceses parecem querer. Mesmo assim, ganhou as presidenciais.

Os dirigentes do Partido Socialista Francês, numa atitude de salve-se quem puder, aceitaram trocar os seus princípios por uns lugares na Assembleia Nacional. Negaram sete décadas de separação de águas, negaram o facto de só se poder fazer uma verdadeira política de esquerda moderada quando se limitam as loucuras da esquerda folclórica.

A moderação foi sempre a marca dos socialistas e dos sociais democratas. A perspetiva reformista foi sempre a opção que nega a revolução permanente. Ora, Mélenchon é tudo o que os socialistas franceses nunca foram, mesmo tendo sido sempre dos mais à esquerda da Europa.  

O que seria a Europa com um governo francês em permanente conflito com Macron? O que seria a política a respeito da guerra na Ucrânia perante o desvario putinista do frentismo melenchonista?

Mas há uma outra e relevante razão para que os socialistas franceses votem Macron e no seu movimento – o impedir a chegada de um governo de extrema-direita a seguir ao descalabro de um governo do frentismo. Ou seja, impedir o nascimento da Sexta República que se anteciparia isolacionista, provinciana, xenófoba. Com Jean-LucMélenchon no exercício da função de primeiro-ministro quem ganha, num prazo curto, é Marine Le Pen. Basta isto para um socialista não ter dúvidas sobre o seu voto.

 

Ascenso Simões